Afinal, o bolsonarismo é também uma face do nazismo?
16 de fevereiro de 2022
Opinião da Semana #16
Por João Pedro Werneck Vianna
Um parcela dos liberais são tolerantes com o fascismo e defendem os direitos dos fascistas porque o sistema de governança pró-capitalista necessita manter cães de guarda de prontidão para o “trabalho sujo”. Eles precisam manter a capacidade de esmagar o anti-capitalismo se houver qualquer ameaça real ao sistema que os apoia. Neste sentido, é importante compreender que a “ameaça comunista” sempre foi uma bandeira do presidente. Tal como Hitler, Bolsonaro também elegeu inimigos externos para serem combatidos.
O apreço pelo autoritarismo também é um fator que aproxima os líderes. Enquanto Hitler foi capaz de subjugar outros partidos e a política alemã, Bolsonaro buscou em mais de uma ocasião subverter a República brasileira, seja nas manifestações do dia 7 de setembro de 2021, seja quando liderava manifestações pelo fechamento do Congresso Federal e do STF. Em inúmeras oportunidades, o presidente brasileiro apelou para discursos de ódio, chegando a dizer que “fuzilaria a oposição”, “exterminaria os comunistas”, ou ainda que “prenderia alguns ministros do Supremo”.
Algumas demonstrações de aliados do presidente também indicam uma relação entre o bolsonarismo e o nazismo. O ex-secretário de Cultura foi, inclusive, demitido após ter plagiado uma propaganda nazista, episódio que chocou o país. Meses depois, o assessor presidencial Filipe Martins, em depoimento à CPI da Covid, fez ostensivamente o sinal de “OK” com os dedos, gesto conhecido por ser usado por supremacistas brancos.
Os exemplos, em três breves anos de governo, se acumulam. São lives com o presidente bebendo leite ao lado de ministros (que faz parte da teoria de uma raça superior, que acompanhou os nazistas na Alemanha), e até mesmo o termo “ucranizar” o Brasil se tornou uma espécie de moda entre apoiadores do presidente. Outras semelhanças entre o bolsonarismo e o fascismo se revelam pelo como o culto ao líder e a ideia de que o líder cultuado seja a única alternativa viável ao socialismo e ao comunismo.
Esse discurso esteve presente no processo de legitimação do fascismo nas décadas de 1920 e 1930. Eles se apresentavam como a única alternativa ao que “estava acontecendo”. A indústria de fake news do governo federal, também chamada de Gabinete do Ódio, impulsionada por robôs nas redes sociais e diversas notícias falsas, contribui para que Bolsonaro seja visto como um outsider na política brasileira, uma suposta figura ungida e incorruptível.
Nos últimos anos, o presidente brasileiro desacreditou as urnas eletrônicas, inventou a existência de uma caixa preta no BNDES , e espalhou inúmeras fake news sobre Universidades Federais, o SUS, vacinas, professores, políticos e ministros de Estado.
A sua empreitada rumo ao extremismo deflagrou um processo crítico na política brasileira. A antropóloga da Unicamp Adriana Dias estima que existem pelo menos 530 núcleos nazistas no Brasil, um universo que pode chegar a 10 mil pessoas. Isso representa um crescimento de 270,6% de janeiro de 2019 a maio de 2021. Além disso, ela encontrou três sites neonazistas que tinham relação com o então deputado Jair Bolsonaro. Ela encontrou uma correspondência do presidente do Brasil publicada por três sites neonazistas brasileiros quando este era deputado. Para a antropóloga, é possível inclusive que Bolsonaro financiasse estes sites quando era parlamentar.
Embora não seja possível afirmar que o presidente brasileiro é um nazista de fato, é inegável que o movimento político que o acompanha tenha possibilitado a ascensão de um segmento da sociedade que parecia adormecido. Entre os grupos neonazistas, Adriana explica que eles têm um ódio ao feminino e por isso uma masculinidade tóxica. “Eles têm antissemitismo, ódio aos negros, ódio a LGBTQIAP+, ódio aos nordestinos, imigrantes e negação do holocausto”.
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