Salles, madeireiras e corrupção: a história do resta um
Reportagem da Semana
28 de maio de 2021
Imprensa ADUR-RJ

O ministro Ricardo Salles acompanhado de agentes do Ibama em apreensão de madeira. Imagem: Jornal Valor Econômico.
Na última semana, o ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Salles, foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal (PF) através da Operação Akuanduba, que consiste em apurar crimes contra a administração pública. Aparelhado, o presidente do Ibama, Eduardo Bim, e que também foi alvo da operação, foi novamente afastado de seu cargo por determinação do STF. Entre os crimes praticados por Salles e seus funcionários, há prática de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando. Outra medida de Salles citada no processo foi a suspensão imediata da aplicação de um despacho, emitido em fevereiro de 2020, que permitia a exportação de produtos florestais sem a necessidade de emissão de autorizações de exportação. Ou seja, licença legal para desmatar.
Após a operação da PF contra o Ministério do Meio Ambiente e diversas empresas do setor madeireiro, houve ilações de que a PF não estaria aparelhada pelo governo, principalmente seu setor de combate ao desmatamento. Porém, com a confirmação de que a origem da Operação Akuanduba está no envio de documentos da embaixada dos Estados Unidos às autoridades brasileiras, a teoria perdeu força. A PF fez muito pouco no combate ao desmatamento no Brasil nos últimos dois anos, sobretudo com relação à fiscalização ante ao desmonte do aparato ambiental. E a Operação Akuanduba, analogamente, só aconteceu por pressão (ou imposição) do capital norte-americano no Brasil.
Quando o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (FWS, na sigla inglês), espécie de Ibama norte-americano, confiscou três contêineres de madeira exportados irregularmente do Brasil, no Porto de Savannah, na Geórgia, e em seguida bateu à porta da PF pedindo explicações, a Operação Akuanduba não tinha mais volta. Biden quer amostras oficiais de que seu governo contribuirá na preservação da Amazônia. Semanas depois, oficialmente, a embaixada dos EUA no Brasil forneceu à PF documentações e amostras das madeiras apreendidas pelas autoridades norte-americanas que provavam o crime. A questão, dada a delicadeza das relações internacionais que nutrem as boas práticas, era: ou o Brasil age, ou Salles responderia ante a Justiça norte-americana, causando um imbróglio entre os países. Optou-se pela primeira, logicamente.
Governo Bolsonaro: ministros que abrem a porteira para passar a boiada
Quando o ex-ministro Sérgio Moro deixou o governo, em abril de 2020, alegando que Bolsonaro estava interferindo no trabalho da Polícia Federal para viabilizar esquemas suspeitos de seus aliados, o presidente da República convocou uma reunião de emergência com seus ministros. O episódio, gravado pelo próprio Moro, deflagrou uma série de situações constrangedoras. O ministro Paulo Guedes, que alguns tinham como uma ilha dentro do governo, revelou-se um aliado ideológico do governo, e suas falas foram tão estarrecedoras e desastrosas quanto a do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, que sugeriu, sem meias palavras, fechar o STF, e para satisfação de Ernesto Araújo, que ao seu lado, naquele momento, abriu um generoso sorriso.
Enquanto a sociedade assistia horrorizada a fatídica reunião em que o governo de Jair Bolsonaro prometia punição para quem investigasse seus filhos, instando inclusive o próprio Moro a tomar uma decisão contra aqueles que insistiam em expor a corrupção de Flávio Bolsonaro, ou mesmo os esquemas de milícia digital de Carlos, uma das falas mais covardes daquele encontro saiu da boca de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. A ideia, literalmente, era aproveitar o caos do governo para “passar uma boiada”. Ou seja, enquanto discutia-se até que ponto Bolsonaro estaria envolvido no acobertamento de seus filhos, a legislação ambiental era retalhada por meio de decretos. Praticamente um ano depois, passada a boiada, a conta chegou.
É importante frisar que, no Brasil, a operação para apurar os indícios de contrabando de madeira da floresta amazônica já havia sido autorizada pelo STF em outubro do ano passado, mas foi barrada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), comandada por Augusto Aras, tido como aliado do governo Bolsonaro. Em investigações que envolvem agentes públicos com foro privilegiado, o STF autoriza e a PGR é consultada antes de a Polícia Federal poder deflagrar a operação. Neste caso, a PGR não informou o motivo de não corroborar para o início da ação da PF. Mas as razões são óbvias, e assim como acontece nos episódios de corrupção deste governo, um dia após a operação que mirou o ministro do Meio Ambiente, Jair Bolsonaro saiu em defesa de seu funcionário. Em transmissão ao vivo nas redes sociais, o chefe de Estado disse que Salles era um “excepcional ministro”.
Ernesto Araújo, na véspera de ser demitido por pressão da China, também havia sido chamado de excepcional. Pazuello, antes de mentir à CPI da Covid, também foi agraciado de forma semelhante. Weintraub, removido do MEC também após muita pressão popular, ganhou cargo importante em uma indicação do governo brasileiro, presente de Bolsonaro para o amigo. Atualmente, há inclusive uma campanha para saber qual próximo ministro do STF poderá ser o mais leal ao bolsonarismo, sendo que Aras, da PGR, e André Mendonça, da AGU, pleiteiam palmo a palmo essa indicação, acobertando cada ato anti-democrático do governo, e protegendo os filhos do presidente sempre que possível.
A maior prova de que o bolsonarismo flerta com um golpe porque está enfraquecido são excepcionais ministros de Bolsonaro caindo, um a um. Do ministro da Educação, o alucinado Weintraub e seu projeto privatista e inquisitório, ao impressionante Ernesto Araújo, cujo conceito de diplomacia será uma mancha eterna na história do Itamaraty. Destes, sendo Ricardo Salles o próximo a cair, dada a inevitabilidade dos fatos (sabendo-se como se dão as coisas nas relações com os EUA – um manda, o outro obedece), o resta um é Paulo Guedes. Mas esse, talvez, seja melhor deixar lá mais um ano, à espera da rejeição histórica que sofrerá nas urnas em 2022.
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