No mês da visibilidade LGBTI, mais uma vítima fatal da violência de gênero
Enrique Shyne, tinha 30 anos, trabalhava como atendente de telemarketing, morava com a avó em Cosmos, Zona Oeste do Rio de Janeiro e tinha um carro. Vizinhos contam que no cotidiano ele utilizava roupas masculinas. Familiares e alguns amigos o tratavam por Carlinhos e por Henri. No seu perfil no facebook, as imagens não condizem com o nome ali expresso. Vemos uma mulher nas fotos. Em um dos comentários em sua página, uma amiga a chama no feminino de MissShay, em muitos outros, ela é chamada de “amiga” e recebe elogios como “linda”, “poderosa” e “gostosa”.
No dia 5 de junho, Shyne havia combinado de levar a sobrinha, que estava doente, ao hospital, mas às 20h30 entrou em contato com a irmã Érica Valério Marinho da Silva, e avisou:
“Irmã, não estou em casa, peça a minha mãe para ir [ao hospital] com vocês”.
Este foi o último contato que manteve com a família. Depois de muitas buscas e uma série de omissões por parte da polícia, a família encontrou o corpo de Shyne com sinais de tortura na última quinta-feira, dia 15 de junho, em Seropédica.
Assim que notaram o desaparecimento, os parentes saíram em busca do (ou da) jovem: fizeram postagens em redes sociais, espalharam cartazes pelo bairro de Campo Grande e adjacências e avisaram a polícia. Já no dia seguinte, a família recebeu a denúncia de que o carro de Shyne estava dentro de uma comunidade em Nova Iguaçu. Acionada, a Polícia Militar se recusou a entrar no local sem uma operação policial.
“Ele sumiu numa segunda-feira e nós achamos o carro dele na terça. A polícia foi omissa, não quis entrar na comunidade para achá-lo, agora queremos justiça. Ontem, quando vi o corpo do meu filho, não tinha mau cheiro, nem urubu em cima, nem estava em decomposição. Ou seja, meu filho foi morto há pouco tempo. Se a polícia tivesse nos ajudado ele teria chance de ser encontrado com vida”, contou Solange Marinho, mãe de Enrique Shyne, ao portal G1.
Como havia espalhado seu número de telefone nas redes sociais em busca do filho, Solange também recebeu uma denúncia anônima de uma moradora da comunidade dizendo que havia visto uma mulher sendo espancada a madeiradas no dia seguinte ao sumiço de Carlos Henrique.
“A pessoa me ligou na terça-feira, dia 6, por volta das 23h30. Meu filho tinha cabelo grande, muitos confundem ele com mulher. Avisamos à polícia e nada foi feito. Meu filho estava lá há dias sofrendo. Um policial que conversou comigo falou que meu filho, por ser homossexual, tinha 5% de chances de ser achado vivo. Porque quando é homem matam logo, mas quando é gay eles gostam de judiar, estuprar e espancar. Se a polícia tivesse feito seu trabalho, isso não teria acontecido”, lamentou.
A família não descarta crime de ódio. “Pode ser tudo. Meu filho era homossexual, mas não era baladeiro, não bebia, não usava drogas, nem dormia fora de casa. Com certeza foi uma emboscada”, declarou a mãe.
Solange e a família tratam-no sempre como um homem homossexual, mas o perfil de Enrique Shyne no facebook contém uma série fotos dele sustentando uma imagem dita feminina. Sabendo que o Brasil é o país com maior índice de assassinatos de travestis e transexuais, as chances do (ou da) jovem ter sido vítima de violência de gênero tornam-se ainda maiores.
No mês da visibilidade LGBTI, há poucos dias da Parada do Orgulho LGBTI, em que lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e intersexuais mostram ao mundo que não sentem vergonha do que são e de quem são; que se orgulham de sua sexualidade e identidade de gênero; que exaltam a diversidade, o amor-próprio e o amor ao próximo; tudo indica que o filho (ou a filha) de Solange, irmão (ou a irmã) de Érica, alguém que tinha uma sobrinha, uma avó próxima, tios e tias, foi mais uma vítima da violência de gênero. Mais uma vítima da intolerância, do preconceito, do desrespeito. Esta pessoa foi assassinada por ser quem é, sua morte não será esquecido nem pela família, nem por aqueles que lutam para que isto aconteça. Enrique Shyne! Presente! Presente! Presente!
*P.S.: Acreditamos que utilizar o nome de registro de uma pessoa trans, seja ela travesti ou transexual, é uma forma de violência. Neste texto utilizamos Enrique Shyne porque é o nome que está no perfil da rede social. Esta pessoa foi brutalmente assassinada e, portanto, não pode nos dizer como prefere ser chamada nesta reportagem. Para além dos discursos da família, buscamos contato com amigos para saber a identidade de gênero dele (ou dela), mas, infelizmente, não obtivemos respostas esclarecedoras sobre a questão.
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